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Opinião07/10/2016 | 10h07Atualizada em 07/10/2016 | 10h07

Gilmar Marcílio: enquanto isso...

"Lamentamos o pequeno, o insignificante, sem perceber que tudo passa"

Dezenas de países estão em guerra neste momento. Homens e mulheres são assassinados cotidianamente. Velhos, jovens e crianças também. Enquanto isso, você lamenta não ter conseguido comprar o novo tênis que a Nike lançou.

Hospitais estão abarrotados de pessoas que lutam desesperadamente por suas vidas. Clamam por um ano a mais, um mês que seja. Fazem um balanço de seus atos e se percebem devedores. O contato com o limite lhes dá nova perspectiva. Enquanto isso, você pondera se vale mesmo a pena manter aquela amizade de mais de vinte anos. Afinal, ele persiste em defender aquele partido que você abomina.

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Ele sai de casa, toda manhã, carregando o sonho de conseguir novamente um emprego. Os três filhos já sentem que algo não vai bem. Trocaram de escola, já não jantam mais em restaurante, à mesa, veem minguar a comida. Enquanto isso, você se irrita porque a internet está tão lenta. Imagine, ter que esperar um ou dois minutos para ver o novo clip que lhe indicaram.

Fica sem falar durante uma semana com a sua mãe, pois ela disse uma frase que lhe pareceu hostil. Quer que o respeitem mais, afinal, não é por ser mais velha que.... E, pra ser sincero, está se tornando bem ranzinza ultimamente. Enquanto isso, a saudade aniquila qualquer alegria para quem chora a morte de um filho, um pai, um irmão. E só o arrependimento toca a alma. "Que pena eu ter imaginado que ele estaria sempre por aqui."

O trânsito lhe provoca raiva, bem como a fila para pagar o ingresso do cinema, aquela nota de cinquenta reais, será que alguém roubou? Um olhar de desconfiança sobre tudo. Como está difícil, não é? Enquanto isso, milhares acordam às quatro da manhã para pegar o primeiro ônibus do dia. Percorrem quilômetros e mais quilômetros macerando suas dores, sua insatisfação real diante do que é duro, pesado, dilacerante. Mas persistem.

Há quem reclame do vento, do frio, do calor. Reclama dos colegas, dos amigos, do marido, da esposa. Reclama do almoço, do atendimento no banco, do desvio de duas quadras que teve que fazer para chegar em casa. Enquanto isso, crianças percorrem cinco, dez quilômetros a pé para estudar. Idosos ficam desde a madrugada em filas de uma enfermaria improvisada. Seus olhos estão sempre úmidos, pois suas existências dependem da bondade e do acolhimento dos outros.

Aqui, bem ao seu lado, ao meu lado, há o melhor e o pior. Vemos o que decidimos ver. Lamentamos o pequeno, o insignificante, sem perceber que tudo passa. Filhos do tempo, deixamos de colher a paisagem efêmera dos afetos.

Enquanto isso...

 
 

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