Ciro Fabres: o Uber e as imperfeições - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião12/10/2016 | 14h10Atualizada em 12/10/2016 | 14h10

Ciro Fabres: o Uber e as imperfeições

Não dava para dobrar à direita. E eu sem o waze! Maldição. Precisei dar a volta em dois quarteirões

O Uber que vem aí irá melhorar para as pessoas, para a mobilidade em Caxias do Sul. Nenhuma dúvida sobre isso. É mais concorrência. Vai ter, também, balinha e água mineral. É o transporte por aplicativo. Uau, quer dizer, waw! A modernidade chega em ondas, como o mar – apesar da PEC 241, que vai restringir recursos para o SUS. Onde se viu chamar táxi por telefone? Que coisa antiga.

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Dia desses, tive de ir em Porto Alegre de uma região da cidade onde não estava acostumado até o Zaffari de Higienópolis. Um GPS me guiou, e que perfeição! Metros antes da próxima esquina, uma voz me mandava dobrar à direita, à esquerda. Cheguei ao Zaffari flanando, sem tropeços, encantado com a modernidade.

Já uma semana depois, tive de encontrar uma casa de eventos na Dom Pedro II e — surpresa! — o GPS não se entendeu com a realidade. Não houve jeito. Bati cabeça, tentei daqui e dali, dirigi em ruas que fiquei conhecendo, descobri caminhos e cenários urbanos para, minutos depois, chegar no endereço sem perder nenhum pedaço. A sensação é de que meu mundo havia ficado um pouquinho maior. Um pequeno banho de realidade. O dia a dia sem imperfeições operacionais, tudo funcionando como um relógio, deve ser muito chato.

Tem gente que não sai de casa sem conferir o waze, aquele auxílio luxuoso da tecnologia para se dar bem no trânsito. Sou mesmo um paquiderme, porque nunca me preocupei com isso. Então, saí de casa e, na primeira esquina, a Codeca fazia a fresa do asfalto na Luiz Covolan. Não dava para dobrar à direita. E eu sem o waze! Maldição. Precisei dar a volta em dois quarteirões.

Pode-se fazer considerações semelhantes ao internet banking e às filas nos bancos. Uma fila de banco, dentro de padrões civilizados, não faz mal a ninguém. Aquela espera permite pensar na vida, observar ao redor, exercitar a imaginação e — pecado supremo — até mesmo perder alguns minutos. Mas por favor, devolvam-me logo meu internet banking. Tudo em casa, sem contato com a vida real.

Não se cometerá a insanidade de negar a utilidade desses aplicativos e ferramentas. Apenas sugerir que não é preciso desesperar-se por eles, que a existência ainda é possível sem eles. Já tive de descobrir um táxi no centro de Caxias ao fim da tarde, uma operação delicadíssima, e sobrevivi. A tecnologia pode eliminar as asperezas do dia a dia, oferecer balinhas e água mineral, mas, ao fazer isso, também pode nos esconder as imperfeições, afastar de pequenos encantos e sonegar aprendizados na vida real. A devoção sem freios à modernidade é uma tremenda roubada, que muitos não querem ver.

 
 

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