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Opinião05/10/2016 | 11h18Atualizada em 05/10/2016 | 11h18

Ciro Fabres: algum caos faz bem à saúde

Não há como encaixotar cidades médias e grandes e fazê-las funcionar como um relógio suíço

A idade é o espaço das diferenças, onde elas convivem, é assim que é. Diferenças de personalidade, de estilos, de vivências, de comunidades, de minorias, de formas de expressão, de características pessoais, de ritmos, de horários. Conviver com diferenças não é simples, requer espíritos exercitados. Então, a cidade transforma-se, quase que automaticamente, no espaço dos conflitos, que precisam de mediação. E quanto mais esses conflitos escapam ao controle, o que é típico nas cidades médias e grandes, em combinação com o jeito de ser desse povo, mais flexível ou rigoroso, mais elástico ou implacável nas concessões, mais formal ou mais certinho, mais ou menos educado, mais ou menos cumpridor das regras de convivência, uma cidade torna-se gradativamente um espaço frenético, por vezes alucinado, de caos.

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Não há nada de errado, por si só, em uma cidade ser um espaço caótico. Essa é uma inclinação para cidades médias e grandes. O caos está permitido, até o ponto em que direitos não são atropelados. A perturbação do sossego, por exemplo. É preciso harmonizar caos e direito. Mas não há como encaixotar essas cidades médias e grandes e fazê-las funcionar como um relógio suíço. Nós, brasileiros, não somos como um relógio suíço. De jeito nenhum. As manifestações e expressões extrapolam por toda parte, por exemplo, quando se pinta com grafite o paredão cinza de um viaduto para deixar a cidade mais bonita. Embora isso também possa ser apropriação do espaço público, mas essa já é uma outra discussão. Não há nada de errado, desde que não se atropelem direitos, também nas cidades menos caóticas, mais certinhas, como as nórdicas e europeias, com seus telhados e casas pintados em cores que lembram os brinquedos de montar prédios com peças superpostas da nossa infância, com suas ruas esmeradas e impecáveis, nada fora do lugar.

Pensei nisso domingo, quando fui votar. No endereço da minha seção, nenhum santinho fora do lugar, nenhuma cor ou efervescência que remetesse ao ambiente eleitoral. Nenhuma pulsação, não parecia Brasil. Não gostei daquilo, ainda que saiba que santinho no chão possa indicar crime eleitoral ou ambiental e causar prejuízo ou risco a terceiros. Mas me pareceu a realidade e o jeito de expressar diferenças encaixotados pela legislação e, pior do que isso, pelo desestímulo à política. E isso pode ser nossa perdição definitiva, porque não temos salvação a não ser pela boa política. Eleição é momento de deixar manifestar diferenças, com cores, com alegria, com argumento, com respeito. Não de encaixotá-las. Não devemos evitar a política, muito pelo contrário. E sinais de algum caos fazem bem à saúde.

seus telhados e casas pintados em cores que lembram os brinquedos de montar prédios com peças superpostas da nossa infância, com suas ruas esmeradas e impecáveis, nada fora do lugar.

Pensei nisso domingo, quando fui votar. No endereço da minha seção, nenhum santinho fora do lugar, nenhuma cor ou efervescência que remetesse ao ambiente eleitoral. Nenhuma pulsação, não parecia Brasil. Não gostei daquilo, ainda que saiba que santinho no chão possa indicar crime eleitoral ou ambiental e causar prejuízo ou risco a terceiros. Mas me pareceu a realidade e o jeito de expressar diferenças encaixotados pela legislação e, pior do que isso, pelo desestímulo à política. E isso pode ser nossa perdição definitiva, porque não temos salvação a não ser pela boa política. Eleição é momento de deixar manifestar diferenças, com cores, com alegria, com argumento, com respeito. Não de encaixotá-las. Não devemos evitar a política, muito pelo contrário. E sinais de algum caos fazem bem à saúde.

 
 

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