Adriana Antunes: as amoras e o amor - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião04/10/2016 | 08h52Atualizada em 04/10/2016 | 08h52

Adriana Antunes: as amoras e o amor

Estar vivo dói e amar também, mas não só. O amor é quando nos é concedido deitar-se ao sol

Ouço um som que vem de longe e penso que o amor é uma bailarina que rodopia no asfalto. Ela dança sem contexto, ensaio, enredo, palco ou qualquer tipo de preparação. Apenas surge com seu vestido invisível e dança. Não se pode precisar quando ela aparecerá, pois já pode ter surgido e você não ter percebido, pode estar aí do seu lado, pode dobrar a próxima esquina a qualquer minuto. Não sabemos quando o amor entra na nossa vida, assim como não sabemos quando ele irá partir. Dentre os muitos que cruzam ruas, contam passos, perseguem o tempo, trabalham, estudam, circulam e sonham, alguém distraído e disposto sentirá a aproximação da bailarina. E ela causa um rebuliço. O amor é o inusitado, mas é também o intervalo de uma respiração. E quem respira começa a querer.

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O amor traz ruído e silêncio. Diante dele nos transformamos em instantes. E o instante é a parte do tempo que mais se parece com a alegria. Queimamos, renascemos, devolvemos ao passado as pedras que carregamos e amanhecemos. O amor pode estar na coluna vertebral da mulher sentada a nossa frente, na cortina que bate contra a janela aberta ou na queimadura do primeiro dia de verão. O coração é uma semente inventada. Nele nascem girassóis, isso por que o amor é o território do sol. Como todas as flores, o amor cresce de modo inseguro, na confusão da terra, do asfalto, da noite e da tempestade. Carregamos flores e espantos nos ombros. Temos medo do que parece inocente. A memória nos castiga, nos cobra, nos reprime. As lembranças de amores ruins apodrecem as novas tentativas. Nossos braços ficam sonâmbulos, nossos dedos não conseguem tocar o miolo dos lírios. Tombamos, infantis, achando-nos machucados demais, querendo que alguém apareça e nos ame sem se importar com nossos ossos e veias.

Para ver a bailarina se aproximar é preciso abandonar a pequena infância, a mandíbula e o sono. No início parece névoa. Não é preciso compartilhar com ninguém sobre o sentimento que acordou dentro de você. É preciso apenas que você o aceite. O amor é também precisão e silêncio. Aos poucos a descerrada cinza se transforma no vermelho-amora que aquece o rosto da pessoa amada. Não há fórmula: sentir a coisa sem possuí-la é o desafio. Depois é que o desejo de penetrar a fenda da vida acontece, e aí, já estamos prontos para semear-se e deixar-se fecundar.  

 
 
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