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Opinião11/10/2016 | 09h14Atualizada em 11/10/2016 | 09h14

Adriana Antunes: aprender a olhar as estrelas

Sempre quis ser um cometa e rasgar o céu de alguém 

Descobri que existiam estrelas apenas aos 11 anos de idade. Uma miopia não corrigida me impedia de ver a beleza do céu noturno. Não me lembro como o céu era antes de usar óculos, talvez uma massa uniforme e escura. Mas, lembro do dia em que olhei para o alto e vi um céu chamuscado de luzes. Perdi o fôlego. Conhecia as constelações dos livros e do velho Almanaque Abril. Asteroides, cometas, planetas, planos orbitais, nebulosas, sistema solar, planetas anões, lua, meteoros, estrelas cadentes e todo tipo de elemento que compõe o espaço era matéria de meu interesse. O gosto pelo espaço chegara muito antes que as palavras. Fui uma criança apaixonada pelo azul. Geografia foi por anos a minha disciplina favorita.

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Meu primeiro óculos era redondo, feito de uma armação de acrílico, meio transparente, fundo de garrafão. Era horrível, verdade seja dita, mas era o que meus pais podiam pagar na época. Como eu iria para a escola no dia seguinte? O que meus amigos (e inimigos) iriam falar de mim? Ainda bem que na época não existia a palavra bullying, e ser chacota em sala de aula era teste de aprovação para se criar novos amigos. Resisti até o momento em que o pus e de repente o mundo, encantadoramente, ganhou contornos. Descobri que as folhas das árvores tinham um sistema vascular próprio e que elas não eram grudadas umas nas outras de modo a parecer uma massa uniforme e verde. Descobri que os passarinhos que pousavam nos fios de luz em frente à minha casa não eram apenas de uma única cor escura, mas sim, coloridos. E principalmente, pude começar a assistir a filmes legendados. Ganhei o mundo. O que mais alguém com 11 anos pode querer além de ir ao cinema, observar passarinhos, desenhar árvores e ver estrelas? Descobrir que o mundo tem contornos mudou minha relação com o lápis de cor.

Aprender a olhar o mundo foi a primeira metáfora que a vida me ensinou. Foi quando olhei as estrelas pela primeira vez que me descobri humana. Descobri também que não é necessário questionar tudo, essa mania de racionalizar a vida a torna árida demais. Nem tudo precisa de explicação para existir, quando não indagamos o mistério, não traímos o milagre. A beleza pode ser uma grande ameaça, e descobrir-se humano é aceitar que nosso destino será sempre o chão.

 
 

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