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Arte têxtil20/08/2016 | 07h30Atualizada em 20/08/2016 | 10h28

Bordado é ferramenta para discussões como gênero e feminismo em oficina da jornalista Bruna Antunes

Nos encontros, linhas, agulhas e telas passam a ter novos significados

Bordado é ferramenta para discussões como gênero e feminismo em oficina da jornalista Bruna Antunes Jonas Ramos/Agencia RBS
Liane Osmarin (E) e Luana Picetti (D) participaram da turma da professora Bruna que se reuniu em Bento Gonçalves Foto: Jonas Ramos / Agencia RBS

Num passado nem tão distante, saber bordar era predicado indispensável a mulheres belas, recatadas e do lar. A lista de atributos das moças consideradas "boas para casar" era engordada com habilidades como cozinhar (bem) e costurar, tendo em vista, quase sempre, os cuidados com o futuro marido e os filhos. Com o passar do tempo, essas exigências foram perdendo força, e os trabalhos manuais foram ressignificados. Nesse contexto, meadas de linha, agulhas e tela passaram a ter outro simbolismo para mulheres como a jornalista Bruna Antunes, 31 anos.

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Por meio de iniciativas como o curso de Bordado Empoderado, criado por ela em Porto Alegre no fim de 2015, o ponto-cruz e outras técnicas transformam-se em ferramentas para a disseminação de ideias feministas. A ideia partiu de uma amiga que pediu a Bruna para ensiná-la a bordar.

— Vi que tinha uma oportunidade de juntar as aulas de bordado ao ativismo feminista e resolvi encarar — conta ela, que no início do mês subiu a Serra em dois sábados para ensinar um grupo de mulheres em clima bastante informal, em um café em Bento Gonçalves.

A jornalista Bruna Antunes criou  o curso depois que uma amiga pediu para ensiná-la a bordar, no ano passado Foto: Jonas Ramos / Agencia RBS

Formada em Jornalismo, Bruna aprendeu a bordar com a avó aos nove anos e passou a usar a técnica para presentear amigos com mimos feitos por ela mesma. Mais tarde, fez da crítica de mídia feminista o objeto de estudo de seu trabalho de conclusão de curso de graduação. Desde então, mergulhou cada vez mais no ativismo em favor das mulheres.

— Feminismo é olhar para outras mulheres como alguém que passa por coisas semelhantes. Acho que sempre fui feminista, mas não me chamava assim — afirma.

Mais do que um momento para aprender as técnicas, encontros acabam sendo uma  troca de experiências Foto: Jonas Ramos / Agencia RBS

O curso completo tem quatro módulos, divididos entre ponto-cruz e bordado livre. Como saber bordar não é um pré-requisito, as aulas começam do básico. Antes de partir para os pontos, Bruna ensina nomes de tecidos usados como base, agulhas e corte das linhas.

Apesar de não haver restrição de gênero, a maioria dos aprendizes é de mulheres na faixa dos 25 anos. Mesmo assim, já teve alunos de botânica que queriam reproduzir em bordados as folhas que estudavam, estudantes de design de moda interessados em criar uma marca de tênis com bordados aplicados nas peças e até mesmo um rapaz, que participou do curso com a intenção de aprender a bordar para confeccionar presentes para a namorada.

Mais do que ser simplesmente um momento para aprender as técnicas do trabalho manual, os encontros acabam sendo uma verdadeira troca de experiências. Entre um ponto e outro, as alunas discutem questões relativas ao movimento feminismo e seus reflexos na sociedade.

— Os homens são socializados para pensar que há coisas para homens e coisas para mulheres. Temos uma nova geração chegando com uma consciência diferente disso, e tenho muita esperança. Vai fazer uma diferença muito grande nos próximos anos. Se com 18 anos já têm conhecimento de causa, imagina quando tiverem a minha idade — reflete a professora.

O punho fechado é o símbolo mundial do feminismo. Cada cor representa uma vertente do movimento Foto: Jonas Ramos / Agencia RBS

Em Porto Alegre, Bruna e seis das alunas da primeira turma criaram o coletivo Nectarina Bordados Subversivos para vender seus trabalhos. A escolha da fruta para o nome do grupo não foi por acaso: uma vez que cortada ao meio, tem a aparência do órgão sexual feminino.

— Vivemos em uma época em que mulheres são questionadas pelo jeito que se vestem e os pelos que têm no corpo. Temos que mudar isso — acredita.

Apesar de tudo, Bruna diz ficar incomodada com o uso indiscriminado da palavra "empoderamento":

— A palavra empoderamento está sendo usada até para vender maquiagem. É uma palavra que vende. A gente sofre influências de todos os lados para ser consumista.

Além dos módulos de ponto cruz, outros segmentos do curso abordam o bordado livre (foto), Foto: Jonas Ramos / Agencia RBS

O FEMINISMO E SUAS VERTENTES
:: Feminismo negro: parte da ideia de que a mulher negra, por sofrer dupla opressão, não é representada por outros feminismos 
:: Feminismo interseccional: procura conciliar as demandas de gênero com as de outras minorias, considerando classe social, raça, orientação sexual, deficiência física. São exemplos de feminismo interseccional o transfeminismo, o feminismo lésbico e o feminismo negro. É o mais receptivo à participação dos homens no movimento. 
:: Feminismo radical: acredita que a raiz da opressão feminina são aos papéis sociais inerentes aos gêneros. A partir dos anos 2010, com o boom do feminismo na internet, a vertente radical foi retomada por garotas jovens, autodenominadas "radfem". 
:: Feminismo liberal: o objetivo das feministas liberais é assegurar a igualdade entre homens e mulheres na sociedade por meio de reformas políticas e legais. 
:: Ecofeminismo: aborda a relação da mulher com a natureza e expõe a interligação entre a exploração e submissão da natureza com a da mulher

Oficinas específicas
Além do Bordado Empoderado, Bruna elaborou outros cursos mais específicos, como bordado em vestuário, bordado em miniatura e caligrafia. Interessados podem entrar em contato pelo email bordado@brunaantunes.com ou pela página Bordado Empoderado no Facebook

Conversa terapêutica
Uma das participantes do curso de Bordado Empoderado em Bento Gonçalves, a psicóloga Milene Zilio, 27, viu nas aulas a possibilidade de usar a experiência com linhas e agulhas em sua rotina no consultório.

— A proposta de associar o bordado à discussão de gênero feminino é muito boa e penso que vai ter uma utilidade muito grande — afirma.

A arte educadora Maria de Lourdes Nunes da Silva, completa:

— É a oportunidade de tocarmos em assuntos considerados tabus pela sociedade. Todas as piadas e mensagens engraçadinhas que vemos diariamente só contribuem para a manutenção desse status quo.

Entre um ponto e outro, as alunas discutem questões relativas ao movimento feminismo e seus reflexos na sociedade Foto: Jonas Ramos / Agencia RBS

Como primeiro trabalho, Maria de Lourdes escolheu bordar o punho que representa mundialmente o feminismo. Aos 52 anos, ela vê o bordado como um "reencontro com as raízes, numa época em que tudo está muito tecnológico".

— Estar aqui interagindo e fazendo esse trabalho artesanal em contato com outras pessoas que antes não se conheciam é muito bom. Junta a criatividade com a questão do empoderamento, e tem a conversa, que é muito terapêutica — reflete.

Liane, 23, e Camila Osmarin, 27, também aprovaram o projeto. Empresárias do ramo da moda, as irmãs pretendem inserir o bordado nas peças que produzem, e aproveitaram o curso para refletir a respeito das questões femininas. No seu projeto, Liane bordou os dizeres Encane -, Desencane +.4

— As pessoas usam muito tempo cuidado da vida dos outros. Só o fato de estarmos aqui, já mostra como essa é uma questão que importa — afirma.

Objetivo do curso é refletir questões como gênero e feminismo, por meio da troca de experiências e da arte têxtil Foto: Jonas Ramos / Agencia RBS

A designer de interiores Luana Picetti, 22, escolheu a palavra em inglês Whatever (tanto faz, em português) para expressar-se a respeito do tema:

— Desde que tu respeites o teu espaço e o espaço dos outros, tu tens a liberdade de ser o que tu quiseres — salienta Luana.

O estudante de moda Airton Junior foi mais contudente. Definindo-se como um artista, Airton veste-se apenas com as roupas que confecciona, com o objetivo de "chocar e ir contra a sociedade". O cabelo comprido e com mechas loiras e as unhas compridas e pintadas completam o visual do jovem, que bordou a expressão Fuck gender rules (Fodam-se as regras de gênero).

Peça elaborada com o uso do bordado livre chama a atenção para questões envolvendo a autoestima Foto: Jonas Ramos / Agencia RBS

Das páginas para os panos
Contos de autores variados como Clarice Lispector, Machado de Assis, Vinicius de Moraes, Guimarães Rosa e Mario Quintana servem de inspiração para a oficina da artista Bel Porazza, em andamento na Do Arco da Velha Livraria e Café, em Caxias do Sul. O projeto Bordar Contos consiste em desenvolver trabalhos inspirados em um conto, lido e discutido em aula, dentro de tendências de arte têxtil.

— Cada um representa algo que o sensibilizou a partir do conto. A leitura pode ser a mesma, mas os trabalhos são completamente diferentes, porque cada um faz conexão com o que já conhece — afirma a professora, uma paulistana que reside em Canela há cerca de 10 meses.

Em quatro encontros de duas horas, os participantes usam técnicas variadas para criar desenhos com combinações únicas de cores e texturas. O bordado, compara Bel, vem como uma pintura, nas quais diferentes tecidos e linhas fazem as vezes de tela e tintas.

O projeto Bordar Contos consiste em desenvolver trabalhos inspirados em contos de autores diversos Foto: Bel Porazza / divulgação

 — Para cada detalhe que se quer representar, como o chão, a terra, um jardim, por exemplo, há pontos mais indicados — explica, citando, entre outros, nomes como haste, cruz, corrente e rococó.

Segundo ela, nos últimos dois anos houve uma tendência mundial de retorno do bordado criativo, que deixou de ser apenas uma atividade reservada às mulheres.

— É importante que não haja esse estigma, mas, infelizmente, não tive nenhum aluno homem ainda — lamenta.

Novas turmas

A oficina Bordar Contos terá novas turmas em setembro. Interessados podem entrar em contato na Do Arco da Velha pelo telefone (54) 3028.1744 ou pelo email marion@doarcodavelha.com.br

 
 
 

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