Vania Herédia: os desafios e as demandas de uma sociedade que envelhece - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Entrevista11/07/2016 | 12h41

Vania Herédia: os desafios e as demandas de uma sociedade que envelhece

Socióloga e docente da Universidade de Caxias do Sul é uma das participantes da Jornada de Inverno da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, que ocorre em Veranópolis, dia 29 de julho

Vania Herédia: os desafios e as demandas de uma sociedade que envelhece Jonas Ramos/Agencia RBS
Era da longevidade trouxe aspectos positivos, mas também demandas que precisam ser atendidas com urgência, explica Vania Herédia. Foto: Jonas Ramos / Agencia RBS

"A população brasileira envelheceu muito rápido. Isso significa que a sociedade não teve tempo para se preparar para receber os novos velhos". A afirmação da socióloga e docente da Universidade de Caxias do Sul Vania Herédia resume uma realidade que muitas vezes costuma ser "maquiada", tanto no cotidiano de quem vive e convive com a velhice quanto em filmes, novelas e naqueles ilusórios comerciais de margarina, que martelam no conceito da família feliz, com todos em saudável harmonia, sem conflitos etários. 

Uma das entrevistadas do recente documentário EnvelheSER, com abrangência nacional em função da parceria da UCS TV com o Canal Futura, Vania é categórica ao afirmar que muitos idosos vivem mais, mas não necessariamente com melhor qualidade de vida. Uma realidade que precisa ser problematizada nas mais diversas frentes, visto que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no ano de 2060 a expectativa de vida da população deverá ser, em média, de 81 anos, e o número de pessoas com mais de 60 anos poderá ultrapassar os 58 milhões.

Nuances do envelhecimento em série da UCS TV

Planejamento urgente e constante, portanto, não podem esperar, completa a estudiosa, uma das participantes da Jornada de Inverno da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Aliás, a 18ª edição do encontro, no próximo dia 29 de julho, retorna a Veranópolis, na Serra – a chamada "Terra da Longevidade" também é berço das pesquisas sobre envelhecimento no Brasil e faz parte dos locais escolhidos para a primeira avaliação nacional sobre "cidades amigas dos idosos".

Pioneiro: Em que momento atentou-se para as demandas de uma sociedade que começava a envelhecer?
Vania Herédia: Em 50 anos, houve uma revolução demográfica que ocorreu no mundo e afetou tanto países desenvolvidos como não desenvolvidos, inclusive o nosso. Essa revolução foi responsável pela chamada "Era da Longevidade", que muitos autores chamam a "revolução da longevidade", sendo que ela trouxe, como todo fenômeno novo, aspectos positivos, mas também demandas que precisam ser tratadas para que as pessoas que vivem mais tenham suporte social para tal. A revolução da longevidade mostrou que as mulheres vivem mais que os homens, que a espécie humana prolongou sua estimativa de vida média, que muitos idosos vivem mais, mas não necessariamente com melhor qualidade de vida. Se olharmos para o nosso país, teremos um cenário distinto de 30 a 40 anos atrás, quando as pessoas morriam mais cedo, havia um número crescente de crianças nascendo, as prioridades centravam-se em políticas públicas de atendimento infantil e juvenil, os jovens formavam famílias com um número considerável de filhos e o sonho era envelhecer para poder aproveitar a vida.

Pioneiro: O Brasil não teve tempo para se preparar...
Vania: O aumento da expectativa de vida foi uma vitória da sociedade moderna, que qualificou a vida urbana, o avanço das tecnologias, o desenvolvimento técnico-científico, as lutas sociais, a organização dos movimentos sociais em prol de uma sociedade mais equilibrada, com uma saúde pública que pudesse atender às demandas que nascessem dessa organização. Entretanto, a sociedade não cresceu de maneira equilibrada e muitos desajustes sociais geraram muitas desigualdades afetando o padrão de vida da população. Nesse contexto, a sociedade foi crescendo – e sua população também – sem se preparar para enfrentar os resultados do seu envelhecimento. Se tomarmos os dados do último censo demográfico (2010) no Brasil, temos a prova desse raciocínio, ou seja, enquanto a população geral cresceu 12%, a população idosa cresceu 41%. Não é apenas um problema de ordem demográfica, é uma questão social, de planejar uma sociedade que envelhece, que precisa de cuidados, que precisa de novas instituições para dar conta dessa realidade.

Pioneiro: Sua experiência no Brasil e Exterior permite diagnosticar algum ponto específico que precisa ser atacado de frente?
Vania: Uma das questões que mais preocupam os idosos é a saúde. Em nossos estudos (na UCS), é interessante observar que as mulheres procuram de forma mais frequente os serviços de saúde do que os homens. Algumas pesquisas que realizamos no Rio Grande do Sul, muitos anos atrás, junto ao Conselho Estadual do Idoso e às universidades gaúchas, apontam que as mulheres procuravam os serviços de saúde e faziam exames de prevenção do câncer em todos os ciclos de vida e os homens, não, numa demonstração distinta de hábitos que fazem a diferença na indicação de doenças. Cito essa pesquisa porque, mesmo tendo ciência desses resultados, não houve uma mudança nos hábitos masculinos de assegurar a prevenção por meio de exames periódicos. A mulher cuida mais de seu corpo do que o homem, e essa atenção lhe dá mais anos de vida. Alguns autores comentam que a mulher foi mais preparada para cuidar, mas na vida moderna, tanto o homem quanto a mulher são responsáveis pelo cuidado familiar, mesmo que ainda essa tarefa tenha uma marca feminina.

Para Vania, a convivência intergeracional trouxe muitos ganhos, mas também uma série de conflitos, em que nem sempre as soluções eram as mais adequadas e as esperadas pelos pais. Foto: Jonas Ramos / Agencia RBS

Pioneiro: O idoso está preparado para virar filho dos filhos e vice-versa? Como manter um equilíbrio nessa etapa?
Vania: Mesmo que ele não esteja preparado, essa é uma realidade recente. Muitas famílias estão vivendo pela primeira vez a experiência de reunir no grupo familiar quatro gerações. Essa prática não era comum, pois os indivíduos morriam cedo. A convivência intergeracional trouxe muitos ganhos, mas trouxe também uma série de conflitos, em que nem sempre as soluções eram as mais adequadas e as esperadas pelos pais. Invertendo os papéis sociais, percebe-se que nem todos os filhos têm condições de cuidar de seus pais, e mesmo que haja uma expectativa por parte dos mais velhos que isso aconteça, não é o que ocorre na realidade. Nesse sentido, nascem demandas que precisam ser resolvidas pela sociedade, que implicam em ações educativas que envolvam as gerações e as preparem para enfrentar as pressões que nascerão dessas relações. Além disso, a sociedade precisa oferecer serviços que atendam a essa realidade, como a qualificação das instituições de longa permanência, suporte para doenças degenerativas, cuidados diários para idosos por meio de oferta de Centros Dia, atendimento domiciliar para doentes e necessitados de cuidados contínuos, entre outros serviços.

Pioneiro: A pessoa de 40 anos de hoje já se pergunta como estará daqui a 10, 20 anos e, geralmente, costuma dizer que não vai se considerar velha quando esse tempo chegar. Pode-se dizer que existe um movimento de retardamento da velhice?
Vania: A negação da velhice é uma constatação. Em nossas pesquisas, temos entrevistas em que pessoas de mais de 80 anos afirmam que não envelheceram. O que isso representa? Não envelheceram ou não perceberam o seu envelhecimento. Para os idosos mais jovens, é difícil reconhecer a velhice. Mas nos faz pensar quanto é recente o envelhecimento de uma população que não teve um modelo de envelhecer. Se fossemos preparados para envelhecer a cada dia da nossa existência, o sentido da vida seria mais precioso, como um reconhecimento da caminhada.

Pioneiro: O fim da vida assusta?
Vania: É muito duro, para o idoso e para a família, conviver com a morte diária. Esse "enfrentamento" assusta. Não é a mesma pessoa que está ali, e não são firmados muitos vínculos no fim da vida. Filhos, que sempre foram cuidados, não costumam estar preparados para a inversão de papéis. Muitas vezes, é um luto diário.

Vania Herédia: "o idoso não foi preparado para ser asilado" Foto: Jonas Ramos / Agencia RBS

Ser asilado

Segundo Vania, o idoso não foi preparado para ser asilado. Entram aí as questões de autonomia e independência. "Mesmo em casa, eles precisam ter algum poder de decisão, ajudar nas atividades diárias, ainda que dependam dos outros. Costumo dizer que os velhos não mudam: se ele foi uma pessoa difícil na juventude, será difícil na velhice. Muitos conflitos vêm daí: as gerações mais novas acham que não vão aprender nada com os velhos. Segundo Norberto Bobbio, no livro O Tempo da Memória, o mundo dos velhos é o mundo da memória. Esse sábio professor afirma que o velho sabe por experiência aquilo que os outros ainda não sabem e precisam aprender com ele".

O documentário EnvelheSER

O recente documentário EnvelheSER, uma parceria entre a UCS TV e o Canal Futura, trouxe um amplo panorama da situação do idoso na região da Serra. Alguns dos episódios podem ser acessados nos canais da UCS TV e do Futura no youtube.


 
 
 

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