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Comportamento30/07/2016 | 08h01Atualizada em 30/07/2016 | 08h01

Reinado das crianças

Psicanalista defende que pais, por preferirem ser amados a respeitados, deixaram os filhos mandarem na família

Reinado das crianças Porthus Junior/Agencia RBS
Foto: Porthus Junior / Agencia RBS
Siliane Vieira e Tríssia Ordovás Sartori

siliane.vieira@pioneiro.com;trissia.ordovas@pioneiro.com

Apesar de ter apenas 21 anos, a youtuber e estudante de Publicidade e Propaganda Stephanie Alves de Queiroz tem uma certeza na vida: não quer ter filhos. E, por mais natural que isso pareça a ela, volta e meia precisa explicar aos outros o porquê. Mas, se tivesse feito uma opção pela maternidade, possivelmente o questionamento jamais surgisse.

– São sempre os mesmos comentários quando dizemos que não queremos ser mães: ¿mas e quando você ficar velha, quem vai cuidar de você?¿, ou ¿ah, isso é uma fase, quando ficar mais velha você vai querer filhos!¿, ou ainda ¿mas crianças são bênçãos!¿. Pior são as mulheres influenciando quem não gostaria de ter filhos dizendo ¿mas só me senti completa com uma criança¿. Desculpe, mas nós somos diferentes. Sempre deixo clara minha opção e ignoro comentários assim, afinal, não seriam essas pessoas que iriam cuidar do meu filho – opina ela, que comanda no Youtube o Canal da Absoluta, no qual trata de temas como o feminismo.

Stephanie comenta que já cresceu com essa ideia muito clara na cabeça e acredita que não vá mudar de opinião no futuro. No Facebook, ela inclusive participa do grupo Minas Childfree (¿livre de crianças¿) – um entre muitos disponíveis na rede social defendendo o mesmo conteúdo – e defende a liberdade de cada mulher poder decidir sobre maternidade sem pressões da sociedade. Felizmente, hoje se pode falar abertamente sobre isso, mesmo que ainda provoque espanto em alguns.

– Você já notou que uma mulher não tem que dizer por que decidiu ser mãe? Claro, pois isso é o que esperamos dela. Agora, uma mulher que não quer ser mãe tem que se justificar o tempo todo, não só para a família e os amigos, mas principalmente para ela mesma – diz a psicanalista Marcia Neder, no recém lançado Os filhos da mãe – como viver a maternidade sem culpa e sem o mito da perfeição (Leya, 224 págs.,R$ 29,90).

Na obra, a pesquisadora apresenta perspectivas sobre ser mãe, desconstrói mitos e questiona os papéis assumidos na criação do rebento, a partir de referências culturais e da própria experiência. Mãe de Adriano, 29, e Julia, 33, analisa a relação entre mães e filhos, que tem se tornado símbolo da vida feminina.

– Na civilização católica tradicional, o feminino se define na fecundidade, reforçando uma obrigatoriedade implícita e explícita de ser mãe – afirma, em entrevista ao Pioneiro.

Infantolatria e meternolatria

Criticando a ideia de maternidade como sendo uma espécie de bênção para as mulheres, Marcia destaca os conceitos de infantolatria e maternolatria, centrais nas famílias contemporâneas. Um dos motivos que a desagrada é o discurso recorrente de que crianças estão sem limites, e esse desrespeito por parte delas é um sinal do declínio da autoridade paterna.

– Havia a leitura de que a falta de autoridade do pai era provocada pelo movimento de emancipação das mulheres, como se elas tivessem roubado o poder dos pais. Por irem ao mercado de trabalho, sentiriam-se culpadas e, assim, seriam mais permissivas na criação dos filhos. Não concordo com isso. Se esse poder estivesse nas mulheres, elas mandariam! – explica a psicanalista.

Com as pesquisas, Marcia percebeu é que ambos – pais e mães – perderam o poder. Quem o ganhou foram as crianças. Assim, ela questiona: se a criança se tornou a poderosa da família, por que se culpa a mãe?

– Nós colocamos a criança num pedestal, num trono, a transformamos numa majestade. Ao longo do século 20, tornamos as crianças em déspotas, depois reclamamos. A criança não tem poder para pegar o trono e o cetro, são os adultos que dão para ela. Vivemos em um novo regime social, do filiarcado, da pedocracia (do grego pedos, criança) – diz.

Essa situação, muitas vezes percebida como birra infantil, reforça a certeza de Stephanie em não se tornar mãe. O comportamento usual de crianças em público – muitas vezes fazendo de tudo para chamar a atenção de quem está por perto – e a falta de interesse dos pais na hora de educá-las a incomodam profundamente.

– As pessoas, muitas vezes, têm filhos, mas não têm tempo para eles e nada que uma criança realmente precise, só as jogam com uma TV ou um tablet ligado e as deixam sozinhas para poderem descansar. O ponto é, se a vida em casal é agitada e vocês mal têm tempo para si, o que o faz pensar que teria tempo de cuidar de outra? – questiona a estudante.

– Isso ocorre porque, hoje, pais e mães querem ser amados e não respeitados – discorre Marcia.

Assim como Stephanie, cada vez mais mulheres têm se negado a participar deste filiarcado. Contestar a maternidade como obrigatoriedade social/física/evolutiva de todas mulheres, inclusive, é uma das bandeiras históricas do feminismo:– Não deveria ser imposto às mulheres como uma lei que todas devem seguir à risca, conhecida como maternidade compulsória. Não deveríamos ser forçadas a isso, mas todas nós fomos criadas para ¿casarmos, termos filhos¿ – critica.

Para Marcia, a mulher, em algum momento, vai sentir-se culpada de qualquer jeito, se quiser ou não ter filhos:

– Dá para viver sem culpa, desde que se enfrente uma batalha pessoal como a que enfrentei. Trinta anos atrás nem se discutia isso. É preciso saber que ser mãe é como quase toda escolha: é preciso fazer concessões, não haverá períodos só de alegrias.


Mãe de Arthur, três, Clarissa Scholz Pellin, 36 anos, desdobra-se entre o trabalho em turno integral e a criação do menino Foto: Claudia Velho / Divulgação

Culpa, uma velha conhecida das mães

Ser mãe é sentir culpa. Essa é uma máxima conhecida por quase todos que decidem criar uma criança, principalmente em tempos tão caóticos como os atuais. Para a relações públicas Clarissa Scholz Pellin, 36 anos, lidar com esse sentimento é um dos principais desafios na relação com o filho Arthur, três.

– A infância dele é só uma e sinto que estou perdendo muita coisa. Acho que o mais difícil da maternidade é a culpa por trabalhar demais e achar que está dando tempo de menos para o filho – comenta ela, que trabalha o dia inteiro e tira o menino da cama sempre às 6h30min.

Ao meio-dia, Clarissa consegue passar uma hora com o filho, pois ele estuda na escolinha da UCS, onde ela trabalha. Para agradar Arthur, a mamãe de primeira viagem procura fazer o que o menino deseja:

– Essa uma hora é dele.

Já em casa, à noite, Clarissa encontra as tradicionais atribuições domésticas à sua espera. Apesar de contar com a ajuda e apoio do marido, Cesar, e do enteado, Heitor, ela relata que muitas vezes acaba não conseguindo dar muita atenção ao filho neste período.

– Queria chegar em casa e ser do Arthur. Mas às vezes eu fico o dia inteiro longe, chego e tem aquela louça na pia, um monte de coisas para fazer, daí acabo o colocando na frente da tevê – lamenta.

Clarissa, por exemplo, não vê problema em deixar o filho brincar com o celular, desde que seja com supervisão dos pais e consumindo conteúdos infantis.

– A geração dele nasceu nesta realidade, não fico pirada com isso – afirma.

Apesar da sensação de nunca saber se está educando exatamente da forma mais adequada, Clarissa acredita que as mães devem agir mais de acordo com seus instintos do que com as dezenas de conselhos que recebem diariamente.

– Se tu queres ser mãe, tu vais ser uma boa mãe – garante.

As incertezas existem, e não são poucas, mas, para Clarissa, os incontáveis sentimentos maravilhosos que a maternidade proporciona acabam superando tudo.

– O Arthur me deu mais coragem em todos os aspectos, perdi o medo de tanta coisa, porque não era mais por mim, era por ele. É muito bom ser mãe, foi a melhor coisa que fiz da minha vida – justifica.

 

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