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Patrimônio da Av. Júlio09/04/2016 | 08h01Atualizada em 09/04/2018 | 17h33

Histórias que rondam o casarão ao lado da Igreja do Santo Sepulcro, em Caxias

Residência construída pelo imigrante italiano Benvenuto Conte no bairro Lourdes guarda lendas que fazem jus ao aspecto "sinistro" do lugar

Histórias que rondam o casarão ao lado da Igreja do Santo Sepulcro, em Caxias  Tatiana Cavagnolli / Agência RBS/Agência RBS
Casarão é um dos símbolos arquitetônicos da Av. Júlio em Lourdes Foto: Tatiana Cavagnolli / Agência RBS / Agência RBS

Não há quem passe indiferente por ele. Pelas formas, pela visível decadência e até pelo aspecto "sombrio", o centenário casarão localizado ao lado da Igreja do Santo Sepulcro, na Av. Júlio de Castilhos, em Lourdes, é mais do que um ícone arquitetônico de Caxias. Datada de 1908, a construção é provavelmente a mais antiga da via e tem sua história atrelada aos primórdios da imigração italiana na região. História, aliás, que faz jus à fama sinistra do lugar: seu construtor, um escultor bissexto, teria confeccionado o próprio caixão para esperar a morte.

Tudo começou em 1877, quando o italiano Benvenuto Conte, 48 anos (foto), resolveu conhecer a América. Natural da província de Treviso, Conte vendeu suas poucas posses e, com a família, emigrou para o Brasil, estabelecendo-se na antiga Colônia Caxias. Segundo registros do Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, inicialmente o imigrante construiu uma casa de madeira, onde instalou-se com a esposa (falecida aos 40 anos, logo após a chegada ao Brasil) e os filhos Teresa, Ângela, João e Genoveva.

Com o passar dos anos, o imóvel, localizado na antiga Rua Grande (Av. Júlio de Castilhos), deu lugar a uma casa de alvenaria de dois andares, dotada ainda de porão de pedra e sótão. Porém, a "lenda" iniciou mesmo quando o italiano ergueu uma pequena capela de madeira ao lado da residência - a singela construção que daria origem à Igreja do Santo Sepulcro.

No interior, ele teria posicionado um conjunto de esculturas  - representando José de Arimatéia, a Virgem Maria, Maria Madalena, Maria Mãe de Thiago, os quatro soldados romanos, o menino que teria recolhido os cravos da crucificação e o Senhor Morto -, todas entalhadas por ele mesmo, com a juda do escultor Pietro Stangherlin. Além das 10 imagens,  preservadas na cripta do Santo Sepulcro até hoje, Benvenuto teria construído seu próprio esquife e um túmulo sob o capitel. Reza a lenda que, quando estava triste ou doente, o excêntrico senhor repousava no caixão, pregando uma série de sustos em seus familiares.

O imigrante italiano Benvenuto Conte, que teria construído seu próprio caixão para esperar a morteFoto:

História confirmada

A história foi confirmada pelo servidor público João Carlos Pieruccini Faé, 66 anos, tataraneto de Benvenuto. E consta em um depoimento prestado por ele ao Arquivo Histórico Municipal:

 "O Benvenuto fez realmente seu caixão, mas fez também uma novena para um determinado santo que não lembro mais o nome. Segundo se dizia, a pessoa que fazia a tal novena era avisada da data de sua morte uma semana antes, através da visão de um cortejo fúnebre. Parece que o meu tataravô fez a novena e um dia teve a visão. Precavido, deixou seu caixão mais ou menos de prontidão. Só que se passou uma semana, um mês, e nada ocorreu. Ele continuava bem. Achando então que a visão tinha sido falsa, resolveu colocar o Cristo que entalhara dentro do caixão, conforme já quisera fazer outras vezes. Só que pouco tempo depois, ele realmente adoeceu. E quando percebeu que iria morrer, comentou, meio aborrecido, que Jesus o enganara, pois o deixara temporariamente saudável só para ficar com o caixão. Se essa história realmente ocorreu eu não sei, mas foi o que ouvi de minha avó Tereza Pieruccini".

As versões mudam um pouco conforme quem relata, mas pode-se dizer que todas as famílias que passaram pelo sobrado ao longo do século conhecem o episódio. Após a morte de Benvenuto, em 1909, a casa foi vendida para a família Abujamra, que a reformou. Já em meados da década de 1930, o casarão teve como proprietário um senhor de sobrenome Salomon, que revendeu-o à família Finco, responsável por despenhorar o imóvel. Hoje, são os netos do casal Roberto e Olga Brocher Finco os responsáveis pela mítica construção.

O casarão atualmente, um misto de decadência e descaso com sua importância histórica na Av. JúlioFoto:

Outros tempos do casarão

 As irmãs Marisa e Raquel Finco, duas das proprietárias, nasceram décadas depois de todo esse "roteiro de filme", mas acenam positivamente quanto à história do italiano que construiu o próprio caixão. Filhas de Rolin e Mercedes Finco, elas passaram a infância e adolescência por lá, a partir do final dos anos 1950, juntamente com o irmão Paulo Roberto. Daquela época, Marisa e Raquel recordam dos almoços de final de semana e das brincadeiras no quintal tomado de árvores frutíferas, onde seu Rolin, professor do Senai, mantinha uma oficina mecânica.   

— Domingo era sagrado, o churrasco do meu pai e o sagu da minha mãe. A casa cheia de gente, a convivência com os vizinhos, essas coisas que hoje já não existem mais — lembra Raquel.  Praticamente uma extensão da casa, a Igreja do Santo Sepulcro também esteve atrelada à trajetória das irmãs:   

— Casamos as duas lá. Foi lá também que, quando criança, eu descobri como eram feitas as hóstias, daí perdi o encanto com aquela massa branca na hora da comunhão — ri Marisa, lembrando das inúmeras vezes em que o padre saía da igreja pedindo para as crianças não jogarem bola nos horários de missa. 

As irmãs Raquel e Marisa FincoFoto:

Movimento

O vaivém de gente no casarão era potencializado ainda pelo salão de beleza que dona Mercedes, manicure, manteve na sala da frente, com acesso direto para a calçada, nos anos 1970.

- Vinha gente de todo bairro,  os Sehbe, os Rigotto, que moravam aqui na frente - conta Marisa.

Foi no casarão também que a mãe de Marisa, Paulo e Raquel oficializou o casamento religioso com seu Rolin, quase 30 anos após a união civil. 

- O padre Mário (Pedrotti) não admitia, ele exigia a cerimônia religiosa. Montou um altar na sala, com a mesa, e abençoou os dois - contam as filhas.

Tombado pelo Patrimônio Histórico do Município desde 2005, o casarão hoje amarga abandono e descaso. Após o falecimento de Paulo Roberto, em dezembro, a parte inferior onde ele morava entrou em um rápido processo de deterioração. Paredes mofadas, cômodos lacrados, divisórias e pisos infestados de cupim, além do mato tomando os fundos do terreno, denunciam a falta de manutenção. Habitável - e habitado - está somente parte do segundo pavimento, onde reside atualmente a também herdeira Elizabeth Finco Pedron, prima de Marisa e Raquel. 

- Ela e os irmãos também concordam com a venda do imóvel. Hoje, não temos  condições de restaurar conforme as determinações e restrições do tombamento - argumenta Marisa, que se desfez de parte do mobiliário da casa nas últimas semanas.

Com a possível venda e ocupação, as irmãs almejam ver o casarão renovado e bem cuidado, como na época dos pais: 

- Uma casa de chá, aproveitando o espaço do quintal, um antiquário, quem sabe?

Vizinhos próximos também sonham com uma revitalização. Mari Biasuz Bertotti, 66 anos, reside a poucos metros dali, na esquina da Júlio com a Coronel Camisão. Lembra da amizade com dona Mercedes (falecida em 1989), das visitas ao salão para fazer as unhas e da convivência com os Finco.

Da janela de casa, hoje, imagina ver o casarão do outro lado da rua transformado e pulsando, como em um passado não muito distante.

- Quem sabe um espaço de cultura? - arrisca.

Um italiano de espírito aventureiro

Dono de um espírito aventureiro, que o impulsionava a conhecer novas terras e buscar desafios, Benvenuto Conte mapeou toda a Itália e diversos países da Europa a partir da segunda metade do século 19. Católico fervoroso, visitou ainda a Terra Santa, onde ficou encantado com a Igreja do Santo Sepulcro - construída sobre o local onde Cristo fora sepultado.

Chegado a então Vila de Santa Teresa, Conte se estabeleceu próximo à antiga zona Caipora (atual bairro Lourdes), às margens da estrada Conselheiro Dantas. Com o falecimento da esposa, ele dividiu-se entre a criação dos filhos e novas viagens pelo mundo, retornando à Itália em algumas ocasiões para intermediar negócios.

Já o capitel de madeira ao lado da casa foi construído para abrigar as esculturas que costumava entalhar nas horas de folga, buscando recriar a cena do sepultamento de Cristo vista em Jerusalém - e que tanto o impressionara. Posteriormente, a já arcaica estrutura foi substituída pela nova Igreja do Santo Sepulcro, surgida em alvenaria e com alguns traços da arquitetura neogótica, em 1937.

Com a conclusão da nova capela, o terreno dos Conte foi doado à Mitra Diocesana de Porto Alegre. Já em 1942, ele passou à jurisdição da Paróquia de Lourdes, responsável pela igreja até hoje.

Desejo de pai cumprido pela filha

Conforme informações contidas na publicação Memórias de Caxias do Sul pelo Viés do Patrimônio Tombado, o templo do Santo Sepulcro foi projetado pelo arquiteto Luigi Valiera, a partir da iniciativa de Genoveva Conte Pieruccini, filha mais velha de Benvenuto. Nos anos 1930, Genoveva organizou uma comissão de senhoras para arrecar verbas e dar andamento à obra - cumprindo, assim, um desejo do pai, morto em 1909, aos 80 anos.

A construção reforça o clima de dor e sofrimento da crucificação, paixão, morte e ressurreição de Cristo. Esse viés é retratado também pelas demais peças do acervo artístico-religioso da capela. Além das imagens de madeira que lhe deram origem, o templo abriga obras em gesso do Atelier Zambelli, na época localizado a poucos metros dali, e o mural A Ressurreição de Cristo, pintado por Aldo Locatelli nos fundos do altar em 1952.


 
 
 
 
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