Arquivo Histórico Municipal de Caxias celebra 40 anos - Pioneiro

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Memória04/04/2016 | 06h01

Arquivo Histórico Municipal de Caxias celebra 40 anos

Diretora Elenira Prux adianta as comemorações de aniversário da instituição surgida em 1976

Arquivo Histórico Municipal de Caxias celebra 40 anos Roni Rigon/Agencia RBS
Elenira Prux mostra algumas das milhares de fotos, documentos e passaportes que compõem o acervo do Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami Foto: Roni Rigon / Agencia RBS




Há 40 anos começava a se desenhar a história do local que, desde então, consolidou-se como abrigo de boa parte da história imagética e documental de Caxias do Sul. Em 1976, mais especificamente em 5 de agosto, o Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami tinha seu decreto de criação assinado pelo prefeito Mario Vanin - inicialmente, o órgão era atrelado à antiga Secretaria da Educação e Cultura e ao Museu Municipal.

Professora concursada pelo Município, Elenira Prux, 49 anos, está à frente da instituição desde 2013, quando foi convidada pelo então secretário da Cultura João Tonus. Com formação em História e passagens pela Biblioteca Pública Municipal, ela também atuou como secretária do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural - Compahc (1998 a 2004) e integrante da Comissão Executiva para Proteção do Patrimônio de Caxias do Sul (2005 a 2012).

Na entrevista a seguir, Elenira recorda de vários momentos emblemáticos do Arquivo e antecipa algumas atividades deste ano de aniversário. Entram aí a disponibilização online de parte do acervo e um vídeo mapeando toda a trajetória do lugar. Nesse último devem entrar depoimentos de professores, historiadores, ex-diretores e pessoas diretamente ligadas à memória local, como Loraine Slomp Giron, Maria Frigeri Horn, Tania Tonet, Liliana Henrichs, Juventino Dal Bó e Maria Beatriz Pinheiro Machado, entre outros.

Pioneiro: Como teve início sua ligação com a área?

Elenira Prux:
Eu iniciei no Município como professora e, em 1992, assumi uma vaga como assistente administrativa na Biblioteca Pública Municipal, onde atuei por cinco anos. Eu já cursava História e fui trabalhar ao lado do meu então professor, Juventino Dal Bó. Este contato e o que aprendi com ele despertaram meu interesse pelo patrimônio da cidade. Em 1997, o Juventino reassumia a direção do Museu e Arquivo Histórico Municipal (ainda ligados oficialmente, mas separados fisicamente) e me convidou para trabalhar no Arquivo, que recém havia sido transferido para a atual sede. Eu lembro como se fosse hoje: entrei no andar térreo, tinha muito por fazer, o pessoal ainda não tinha conseguido organizar o acervo recém-transportado. Naquele período foi criada a Secretaria da Cultura (desmembrada da Educação) e o Arquivo foi desvinculado do Museu Municipal, passando a ter a denominação de Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami. Também foi criado o cargo de direção, ocupado por Maria Beatriz Pinheiro Machado, com quem passei a trabalhar diretamente, desenvolvendo atividades técnicas e administrativas e elaborando projetos.

Em 1976, quando o Arquivo foi oficialmente criado, o que existia de acervo realmente importante?

Antes mesmo da criação oficial, em 5 de agosto de 1976, o acervo começou a ser formado no prédio anexo ao Museu Municipal. Lá já estavam os documentos da antiga Intendência Municipal e da prefeitura, que, em 1975, havia sido transferida para o atual Centro Administrativo. Em 1977, a doação dos documentos preservados por João Spadari Adami deu à instituição um caráter peculiar, ou seja, de preservar acervos públicos e privados mutuamente. Adami faleceu em 1972, e a família, após vários contatos, doou os documentos textuais e iconográficos por ele preservados no Centro Informativo da História Caxiense, que funcionava junto à sua barbearia, defronte ao Eberle da Sinimbu, entre 1958 e 1972. A estes foram sendo incorporadas muitas outras doações. Já em 1979, diante da ameaça de demolição do prédio conhecido como "antigo Hospital Carbone", a equipe do Museu e do Arquivo deu início a uma campanha para a sua preservação, com o objetivo de abrigar o acervo documental da cidade. Artistas, arquitetos e empresários se uniram à campanha. Foi a primeira negociação entre poder público e empresas privadas, que deu origem à legislação sobre o uso de potencial construtivo em Caxias do Sul.

Como se deu a ocupação da nova sede?

O prédio passou por várias reformas na década de 1980, e, devido um incêndio na prefeitura, foi ocupado pela Secretaria da Educação de 1992 a julho de 1996. Nesse período, foi constatada a necessidade de realizar reforço estrutural interno. Em 1996, as verbas permitiram a realização das fundações e do reforço metálico apenas no andar térreo. Um laudo emitido pelos técnicos da prefeitura apontava para a necessidade de troca do barroteamento do 1º e 2º pavimentos e a continuação da estrutura metálica nos outros andares. Mesmo assim, a equipe decidiu pela mudança, o que ocorreu em outubro de 1996. No final de 1998, veio a notícia de que o prefeito Pepe Vargas havia destinado os recursos necessários para a recuperação definitiva do prédio. De março a novembro de 1999, todo o acervo foi transferido para um espaço vizinho, cedido gentilmente pela empresa Brasdiesel. Foram finalizadas as obras de reforço metálico, melhorias nos banheiros, nas instalações elétricas e nova pintura no prédio preservado. Em 7 de dezembro de 1999, finalmente foi entregue à comunidade o prédio adequado para abrigar o acervo documental da cidade.

Arquivo Histórico Municipal nos anos 1980: um prédio em reformas

De 1976 para cá, quais as principais conquistas (e contribuições) do Arquivo para salvaguardar a memória da cidade?

O trabalho em conjunto com o Museu Municipal foi extremamente importante. Juntamente com as peças do Museu, eram recebidos documentos e fotografias, que, aos poucos foram formando um grande acervo. Em 1980, foi criado também o Banco de Memória Oral, com o registro de entrevistas com pessoas da comunidade, tanto personalidades quanto cidadãos comuns. A partir desse acervo, foram realizadas muitas exposições, o que fazia com que as pessoas se sentissem parte da história da cidade, e assim mais contribuíssem com doações. Como resultado de todo o trabalho desenvolvido, a instituição passou a publicar os boletins Cenas, Memória e Ocorrências, que abordavam aspectos da nossa história e até hoje permanecem na lembrança de muitos. Outra grande conquista foi garantir a preservação e doação do atual prédio ao poder público, condicionando-o à salvaguarda do acervo documental da cidade.

Um relicário para Lucia Carbone


A diretora defronte à sede do Arquivo Histórico Municipal, casarão que abrigou a antiga casa de comércio de Vicente Rovea e o Hospital Carbone. Foto: Roni Rigon

O processo de doação de fotos e documentos ao Arquivo tem aumentado nos últimos anos? As pessoas estão conscientes de que doar o material ao acervo não é perder as fotos, mas sim garantir a sua permanência?

O Arquivo Histórico recebeu doações importantes em todos os períodos. Poderíamos citar inúmeras ao longo dos anos, como acervos de fotógrafos, de famílias e instituições. Só em 2015 recebemos duas doações de cartas de famílias extremamente significativas para a história da cidade. Aos poucos, as pessoas foram percebendo que um documento ou uma fotografia doado e disponível para a pesquisa pode fazer parte de um livro, de uma exposição, tanto no município como fora dele. E essa é uma conscientização que temos de fazer diariamente. É muito gratificante quando uma pessoa encontra uma foto/documento de sua família e que nem imaginava ali ter sido preservado - porque em algum momento alguém resolveu retirar de suas gavetas ou armários e socializar aquela informação.

Doações enriquem acervo do Arquivo Histórico e auxiliam pesquisas

Como o Arquivo Histórico Municipal dialoga com outros órgãos e entidades de caráter histórico-cultural, daqui e de fora?

Procuramos sempre realizar capacitação e aprimoramentos em parceria com o Museu Municipal, o MusCap, o IMHC/UCS, incluindo instituições como a UFRGS, a FURG (Universidade Federal de Rio Grande) e a UFSM (Santa Maria), que possuem cursos de Arquivologia. A digitalização de mais de 500 mil páginas de jornais e mais de 200 mil páginas de documentos públicos foi realizada em parceria com o Centro de Memória da Câmara de Vereadores. Já a restauração do álbum fotográfico Recordação das Antigas Colônias foi feita em parceria com a Associação dos Amigos da Memória e do Patrimônio (Moúsai), via LIC Municipal, em 2014-2015. A informatização foi viabilizada pelo projeto aprovado pelo Programa Caixa de Adoção de Entidades Culturais, em 2007, e a instalação de sistemas de arquivos deslizantes e climatização do setor Fototeca por projeto aprovado pelo BNDEs, em 2008. Em relação a assessorias, muitos arquivos da região e instituições da cidade (quartel, CIC, Clube Juvenil) nos procuram para realização de diagnósticos e/ou capacitação para a preservação de seus acervos.

O lançamento do livro 'O Instante e o Tempo', sobre a trajetória dos fotógrafos de Caxias entre 1885 e 1960, foi a concretização de um sonho alimentado ao longo dos últimos 40 anos. Qual a importância desse tipo de registro?

Desde que a instituição recebeu as primeiras fotografias de doação, havia esse entendimento de que era necessário realizar o mapeamento da produção fotográfica de Caxias e região. E muitos projetos e parcerias foram realizados desde a década de 1980 nesse sentido. Quando percebi que havia uma verba disponível para publicações que poderia ser utilizada na concretização desse sonho, parte da equipe passou a dedicar-se à sua concretização. Como a verba permitiu a publicação de apenas 300 exemplares, a proposta foi de buscar recursos para uma segunda edição. E também porque sempre há a necessidade de realizar algumas correções, ampliação de dados, inclusive com a parceria da comunidade, que reconhece pessoas ali retratadas e até então não identificadas.

Livro O Instante e o Tempo: uma cidade, múltiplos olhares 


Acervo documental do Município ocupa o casarão secular da Av. Júlio desde 1996. Foto: Roni Rigon

Que ações costumam ser feitas para aproximar a comunidade do Arquivo? Escolas costumam agendar visitas?

Não possuímos uma atividade educativa para as escolas de ensino fundamental e médio estritamente pela falta de um professor capacitado e designado exclusivamente para essa ação. Eu mesma realizo o atendimento a alunos da UCS, FSG, Senai e outros grupos interessados. Também a estudantes  de Ensino Médio quando o professor já tem um trabalho desenvolvido na escola,  porque sem isso os documentos não têm sentido para o aluno. Além do atendimento ao pesquisador (alunos, mestrandos, doutorandos e comunidade em geral), há serviços que aproximam muito a comunidade do Arquivo Histórico. Um deles é a emissão de certidões para fins de aposentadoria. Elas são disponibilizadas a familiares de fornecedores de uva das antigas cantinas, a alunos da rede pública municipal e a menores que trabalharam na antiga Comai, o que demanda muita pesquisa. Outro serviço é a disponibilização de antigos projetos arquitetônicos do período anterior a 1950 até 1999, para fins de adequações do PPCI.

O pioneirismo da família Rovea

Que atividades estão previstas para o decorrer deste ano?
Para a solenidade de 5 de agosto está prevista a apresentação do Coro e da Orquestra Municipal, que também completam 40 anos, e o lançamento de uma publicação inédita em parceria com a Editora Belas-Letras. Também um audiovisual contando a trajetória da instituição, em parceria com a Spaghetti Filmes, e a disponibilização de parte do acervo na internet através do Programa Ica-AtoM (reconhecido pelo Conselho Internacional de Arquivos), em parceria com o setor de informática da prefeitura. Mas a maior ação planejada é a incorporação do acervo do fotógrafo Ary Pastori ao acervo público municipal, ainda em processo de viabilização. Além disso, em parceria com o Mestrado em História e o IMHC, da UCS, e com o Centro de Memória/Escola do Legislativo, da Câmara de Vereadores, planejamos um curso sobre a história do município. Ele deve iniciar na Semana de Caxias, em junho, quando ocorre também o lançamento do livro Ecos do Passado, de Marcos Fernando Kirst.

Quais os desafios do Arquivo a partir desse aniversário de 40 anos?

O principal é a organização física e a descrição intelectual dos acervos privados de acordo com as Normas Brasileiras de Descrição Arquivística, uma vez que não possuímos nos quadros do município o cargo de Arquivista (nível superior). Além disso, o gerenciamento do acervo digital, a matriz digital em tiff/jpg, a inserção de metadados e a implementação de um site como forma de socializar a informação, facilitando o acesso aos pesquisadores de outras cidades do país e também da Itália.

 
 
 
 
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